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Terapia cristã não é aconselhamento pastoral

  • 2 de fev.
  • 3 min de leitura


A abordagem clínica desenvolvida por Rodrigo Santinelli na Clínica Santinelli


Em muitos contextos religiosos, o sofrimento emocional costuma encontrar um caminho rápido: o aconselhamento pastoral. Em si, ele não é um problema. O cuidado espiritual tem seu lugar, sua função comunitária e sua importância. O problema surge quando esse tipo de cuidado passa a ocupar o lugar da clínica ou quando a clínica é reduzida a exortações morais travestidas de terapia.


É justamente nesse ponto que nasce uma confusão recorrente: chamar de “terapia cristã” aquilo que, na prática, é apenas aconselhamento religioso.


A abordagem clínica que desenvolvemos parte de uma distinção fundamental: terapia cristã não é aconselhamento pastoral. Embora ambas possam dialogar, elas não operam no mesmo nível, não têm o mesmo objetivo e não produzem os mesmos efeitos.


A diferença de lugar: comunidade e clínica


O aconselhamento pastoral está inserido em uma lógica comunitária. Ele parte de pressupostos teológicos compartilhados, valores comuns e orientações espirituais que visam fortalecer a fé, a vida comunitária e a vivência religiosa. Seu foco está no caminho espiritual do fiel.


A clínica, por outro lado, parte do sofrimento singular do sujeito. Ela não pressupõe adesão doutrinária, nem trabalha com respostas prontas. Seu foco não é corrigir comportamentos à luz de um ideal religioso, mas compreender como o sujeito se constituiu, como sofre e como repete determinados padrões.


Quando esses dois lugares se confundem, o risco é alto: a dor deixa de ser escutada e passa a ser corrigida.


Quando o cuidado vira correção moral


Na prática clínica, é comum atender pessoas que passaram anos sendo “aconselhadas”, mas nunca realmente escutadas. Pessoas que ouviram o que deveriam fazer, mas nunca puderam dizer o que sentiam. Pessoas que aprenderam a se calar para não decepcionar espiritualmente.


Esse tipo de cuidado, ainda que bem-intencionado, costuma produzir:

• intensificação da culpa;

• medo de pensar diferente;

• repressão do desejo;

• dificuldade de se responsabilizar por escolhas próprias.


A clínica não trabalha com a lógica do “dever ser”, mas com a realidade do que é. Quando o sofrimento é tratado apenas como falha espiritual, o sujeito se sente inadequado não por algo que fez, mas por aquilo que é.


O lugar da fé na clínica sem instrumentalização


Um ponto central da abordagem desenvolvida por Rodrigo Santinelli é este: a fé não pode ser instrumentalizada como técnica clínica. Isso não significa excluí-la do processo, mas tratá-la com responsabilidade.


Para muitas pessoas, a fé é uma camada constitutiva da vida psíquica. Ela organiza valores, culpa, esperança, ideal de eu e relação com o sentido da existência. Ignorá-la seria produzir uma escuta incompleta. Absolutizá-la, por outro lado, seria substituir a clínica por moral.


Na clínica, a pergunta não é “o que a Bíblia diz sobre isso?”, mas:

“como essa fé está operando dentro da história subjetiva desta pessoa?”


Essa diferença muda tudo.


A clínica como espaço de elaboração, não de direção


A terapia não é um espaço de direção espiritual, mas de elaboração psíquica. O terapeuta não diz ao paciente o que fazer, no que crer ou como viver sua fé. Ele sustenta a escuta para que o sujeito possa pensar, simbolizar e se responsabilizar por suas escolhas.


Quando a clínica assume o lugar de direção moral, ela perde sua função. Quando o paciente é orientado a obedecer, ele não elabora. Quando é chamado a pensar, algo se transforma.


Essa é uma diferença ética, não apenas metodológica.


Protegendo o sujeito de usos abusivos do sagrado


Uma das funções mais importantes da clínica no contexto religioso é proteger o sujeito de usos abusivos do sagrado. Muitas pessoas chegam à terapia feridas não pela fé, mas pela forma como ela foi usada para controlar, silenciar ou manter relações adoecidas.


Ao diferenciar terapia cristã de aconselhamento pastoral, devolvemos ao sujeito algo essencial: a possibilidade de existir sem medo espiritual. A fé pode, então, ser ressignificada não como instrumento de cobrança, mas como horizonte de sentido.


Uma fé que dialoga com a responsabilidade


A terapia cristã, em sua vertente clínica e acadêmica, não busca produzir submissão, mas responsabilidade. Responsabilidade implica escolha, limite, desejo e reconhecimento da própria história. Nada disso nasce do medo.


Quando a clínica ocupa seu lugar e o aconselhamento ocupa o seu, ambos podem coexistir sem se anular. O problema não é o cuidado espiritual, mas substituir clínica por moral.


Talvez a pergunta mais honesta seja esta:

estamos ajudando pessoas a pensar e se responsabilizar ou apenas a obedecer para não sentir culpa?


É nessa resposta que se define se estamos diante de cuidado clínico ou apenas de correção religiosa.

 
 
 

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