O que a clínica observa na prática
- 3 de fev.
- 3 min de leitura

O que a clínica observa na prática
A pergunta é legítima e aparece com frequência: terapia cristã funciona mesmo? Para muitas pessoas, a dúvida não é se a fé é importante, mas se ela pode estar presente no cuidado emocional sem virar julgamento, moralização ou espiritualização do sofrimento. Especialmente para quem já se feriu em ambientes religiosos, a cautela é compreensível.
Na prática clínica, essa pergunta não é respondida com teoria, mas com experiência.
Ao longo de milhares de horas de atendimento, Rodrigo Santinelli observou que a terapia cristã funciona quando ela é, de fato, clínica. Ou seja, quando não tenta substituir escuta por versículos, nem elaboração psíquica por respostas espirituais prontas. O que produz transformação não é o rótulo “cristão”, mas a forma como a fé é tratada dentro do processo terapêutico.
Quando a terapia cristã não funciona
É importante começar sendo honesto: há contextos em que a chamada terapia cristã não apenas não funciona, como pode aprofundar o sofrimento. Isso acontece quando a fé é usada como ferramenta de correção moral, quando o terapeuta ocupa o lugar de líder espiritual ou quando a dor do paciente é interpretada rapidamente como pecado, fraqueza ou falta de fé.
Nesses casos, o paciente até pode experimentar um alívio momentâneo principalmente por sentir que está “obedecendo”, mas o conflito interno permanece intacto. A culpa se intensifica, o desejo é reprimido e o sofrimento retorna sob a forma de sintomas: ansiedade, exaustão emocional, crises silenciosas ou sensação constante de inadequação.
Isso não é falha da fé. É falha do manejo clínico.
Quando a terapia cristã funciona de verdade
A terapia cristã funciona quando a fé não é usada como técnica, mas reconhecida como uma camada real da vida psíquica. Para muitas pessoas, a fé organiza valores, esperança, culpa, ideal de vida e relação com o sentido da existência. Ignorar isso empobrece a escuta. Absolutizar isso, por outro lado, silencia o sujeito.
Na prática clínica da Clínica Santinelli, observa-se que a transformação acontece quando o paciente pode falar livremente sobre sua fé, seus conflitos, seus desejos e suas dúvidas sem medo espiritual. A clínica não responde por Deus, não interpreta a Bíblia no lugar do sujeito e não impõe caminhos morais. Ela sustenta a escuta para que o próprio paciente possa pensar sua história.
É nesse espaço que a fé deixa de funcionar como ameaça e pode, aos poucos, voltar a ser fonte de sentido.
Resultados que não vêm da repressão
Os resultados mais consistentes da terapia cristã clínica não aparecem como “correção de comportamento”, mas como mudanças mais profundas: pessoas que passam a decidir sem pânico, casais que deixam de sustentar relações por culpa religiosa, indivíduos que aprendem a diferenciar fé de medo e responsabilidade de autoacusação.
Essas transformações não acontecem porque alguém foi mais obediente, mas porque pôde elaborar o que antes estava reprimido. A clínica não tira o conflito ela o torna pensável. E aquilo que pode ser pensado deixa de dominar o sujeito de forma inconsciente.
Fé e saúde mental não são opostas
A ideia de que fé e saúde mental competem entre si nasce, muitas vezes, de experiências ruins não do Evangelho. Quando a fé é usada para calar o sofrimento, ela adoece. Quando a clínica ignora a fé de quem crê, ela se torna incompleta.
A terapia cristã funciona quando respeita os limites de cada campo: a clínica cuida do sofrimento psíquico; a fé permanece como horizonte de sentido, não como instrumento de coerção. Nesse equilíbrio, o sujeito não precisa escolher entre cuidar da mente e preservar a fé.
Então, terapia cristã funciona?
Funciona quando é séria.
Funciona quando é clínica.
Funciona quando não promete atalhos espirituais.
Funciona quando protege o sujeito da culpa e do medo.
Talvez a pergunta mais honesta não seja se a terapia cristã funciona, mas como ela está sendo feita. Quando o cuidado respeita a complexidade humana e os princípios do Evangelho sem espiritualizar a dor, o que se vê na prática não é submissão é transformação real.



Comentários