Quando agradar a todos custa o próprio desejo
- 20 de jan.
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Há pessoas que passam a vida tentando não incomodar. Medem palavras, antecipam reações, ajustam gestos, silenciam vontades. São vistas como responsáveis, maduras, espirituais, confiáveis. Mas, na clínica, costumam chegar com uma pergunta difícil de formular:
“Por que eu não sei mais o que eu quero?”
O preço de agradar a todos, muitas vezes, é a perda do próprio desejo.
O sujeito que vive para o Outro
Desde cedo, alguns sujeitos aprendem que existir é corresponder. O amor recebido está condicionado ao bom comportamento, à adaptação, à obediência. Assim, o desejo próprio vai sendo substituído por uma leitura constante do desejo do Outro.
Lacan nos ensina que o sujeito se constitui no campo do Outro. O problema surge quando ele não consegue sair desse campo, permanecendo preso à tentativa de satisfazer expectativas alheias.
O resultado é um sujeito que funciona bem socialmente, mas que vive em permanente tensão interna.
Culpa por desejar
Nesses casos, desejar não é vivido como movimento vital, mas como ameaça. Sempre que algo do desejo emerge, vem junto a culpa:
“Isso é egoísmo”,
“Isso pode ferir alguém”,
“Isso não é certo”.
O desejo é então recalcado não porque desapareceu, mas porque foi associado à perda de amor. O sujeito prefere abrir mão de si a correr o risco de desagradar.
A vida segue, mas sem entusiasmo. As escolhas são feitas, mas sem convicção.
O excesso de responsabilidade
A tentativa de agradar a todos costuma vir acompanhada de um excesso de responsabilidade subjetiva. O sujeito se sente responsável pelo bem-estar emocional dos outros, como se qualquer frustração alheia fosse culpa sua.
Esse funcionamento gera exaustão, ressentimento silencioso e, muitas vezes, sintomas ansiosos ou depressivos. O sujeito sustenta o laço, mas à custa de si mesmo.
Quando o desejo retorna
O desejo recalcado não desaparece. Ele retorna de forma deslocada: irritação sem causa aparente, crises de ansiedade, fantasias de fuga, relações extraconjugais, compulsões ou um sentimento difuso de vazio.
O sujeito não entende por que “tudo está certo”, mas algo está profundamente errado.
O trabalho analítico
A psicanálise não incentiva o sujeito a romper com todos os laços, mas a reconhecer o lugar que ocupa neles. A pergunta não é “como agradar menos?”, mas “por que é tão difícil sustentar o próprio desejo?”.
Quando o sujeito começa a nomear suas renúncias, algo se reorganiza. Ele passa a perceber que dizer “sim” o tempo todo também é uma forma de violência contra si.
Um deslocamento possível
Sustentar o desejo não significa agir impulsivamente, mas reconhecer que ele existe e tem direito à palavra. O desejo não pede autorização; ele pede escuta.
A maturidade não está em agradar a todos, mas em suportar que o outro nem sempre fique satisfeito.



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