Quando a fé vira anestesia emocional
- 20 de jan.
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Na clínica, é recorrente encontrar sujeitos que não conseguem dizer o que sentem, mas sabem dizer exatamente no que acreditam. O discurso religioso aparece organizado, coerente e correto enquanto o afeto está empobrecido, fragmentado ou ausente.
Esse descompasso não é casual. Em muitos casos, a fé passa a operar não como experiência subjetiva, mas como recurso defensivo frente à angústia.
A fé como defesa psíquica
Do ponto de vista psicanalítico, a fé pode ser investida como formação defensiva, especialmente quando ocupa o lugar de tamponamento do afeto. Frases prontas, certezas absolutas e respostas rápidas funcionam como barreiras simbólicas contra aquilo que ameaça emergir do inconsciente.
Os mecanismos mais frequentes nesse tipo de funcionamento são:
• Negação: o sofrimento é desautorizado (“isso não deveria me afetar”).
• Intelectualização: a dor é explicada, mas não sentida.
• Racionalização: o afeto é substituído por justificativas morais ou espirituais.
• Idealização: Deus, a fé ou a própria imagem religiosa ocupam um lugar perfeito, inquestionável.
O problema não está na fé em si, mas no uso que o sujeito faz dela para não entrar em contato com a própria falta.
O recalque do afeto e seus retornos
Segundo Freud, aquilo que é recalcado não desaparece retorna de forma deslocada. Quando a dor não encontra palavra, ela busca outras vias de expressão: o corpo, a ansiedade, os sintomas psicossomáticos, a irritabilidade crônica, o esgotamento emocional.
Na clínica contemporânea, isso aparece com frequência em sujeitos que “funcionam bem”, mas vivem um cansaço constante, uma sensação difusa de vazio ou uma culpa sem nome. O discurso está organizado; o desejo, não.
A fé, nesse contexto, não produz elaboração ela produz silenciamento.
Dissociação e falso self
Winnicott descreve que, diante de ambientes que não acolhem a experiência emocional espontânea, o sujeito pode desenvolver um falso self: uma adaptação excessiva às expectativas externas.
Em contextos religiosos rígidos, onde determinados afetos são vistos como sinal de fraqueza espiritual, o sujeito aprende cedo a não sentir o que sente, mas a apresentar o que é esperado. Surge uma espiritualidade funcional, mas pouco integrada à vida emocional.
O custo é alto: quanto mais o falso self se organiza, mais distante o sujeito fica de sua experiência autêntica.
Quando a fé impede a simbolização
A psicanálise não busca eliminar a fé, mas interrogar seu lugar na economia psíquica do sujeito. A questão clínica não é “no que você acredita?”, mas o que sua crença está fazendo com você.
Quando a fé impede a simbolização do sofrimento, ela deixa de ser um recurso e passa a ser um obstáculo. O sujeito não sofre menos ele sofre sem saber por quê.
Um deslocamento possível
O trabalho analítico propõe um deslocamento delicado: sair da resposta pronta para a pergunta viva; da certeza que protege para a palavra que arrisca.
Não se trata de abandonar a fé, mas de retirá-la da função de anestesia para recolocá-la como campo de sustentação simbólica, capaz de coexistir com a dúvida, a angústia e a falta.



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