Por que espiritualizar o sofrimento impede a cura emocional
- 2 de fev.
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Uma leitura clínica desenvolvida por Rodrigo Santinelli na Clínica Santinelli
Em muitos contextos religiosos, o sofrimento emocional recebe uma resposta rápida demais: “isso é espiritual”. A frase, quase sempre bem-intencionada, carrega uma promessa de alívio mas, na prática clínica, ela costuma produzir o efeito oposto. Ao espiritualizar a dor, interrompe-se o processo de escuta justamente no ponto em que ele deveria começar.
Na prática clínica desenvolvida por Rodrigo Santinelli, à frente da Clínica Santinelli, essa dinâmica aparece de forma recorrente: pessoas profundamente angustiadas que não foram escutadas em sua dor, mas interpretadas espiritualmente antes mesmo de serem compreendidas.
Espiritualizar o sofrimento não é, em si, um ato de fé. Muitas vezes, é uma estratégia de fuga do contato com a complexidade da experiência humana.
O sofrimento como linguagem psíquica
Do ponto de vista clínico, o sofrimento não é um erro do sistema, nem um sinal automático de desvio moral ou espiritual. Ele é uma linguagem do psiquismo. Ansiedade, angústia, tristeza profunda, conflitos repetitivos e sintomas corporais são formas pelas quais algo que não pôde ser simbolizado tenta se expressar.
Quando essa linguagem é rapidamente traduzida em categorias espirituais pecado, ataque, falta de fé, prova divina o sujeito perde a possibilidade de compreender o que seu próprio sofrimento está comunicando. A dor deixa de ser escutada e passa a ser enquadrada.
Na experiência clínica acumulada ao longo de milhares de atendimentos na Clínica Santinelli, é possível observar um padrão claro: quanto mais o sofrimento é espiritualizado, menos ele é elaborado.
Espiritualização como mecanismo de silenciamento
Espiritualizar o sofrimento funciona, muitas vezes, como um mecanismo sofisticado de silenciamento emocional. A pessoa aprende que sentir demais é perigoso, que questionar é sinal de fraqueza espiritual e que falar da própria dor pode ser interpretado como falta de confiança em Deus.
Esse movimento não elimina o sofrimento apenas o empurra para o inconsciente. Clinicamente, isso se aproxima do que chamamos de recalque: o conflito não desaparece, apenas retorna de outras formas.
O resultado aparece no corpo e nas relações:
• crises de ansiedade sem causa aparente;
• exaustão emocional constante;
• sensação de vazio espiritual;
• dificuldade de tomar decisões;
• culpa difusa, sem objeto claro.
A fé, que poderia sustentar o sujeito, passa a ser vivida como mais uma instância de cobrança.
Quando a fé ocupa o lugar da defesa
Na abordagem clínica desenvolvida por Rodrigo Santinelli, um ponto se torna central: a fé não adoece por si mesma; ela adoece quando é usada como defesa contra o sofrimento.
Quando a espiritualidade ocupa o lugar de resposta pronta, ela impede o trabalho psíquico necessário para a transformação. Deus passa a ser usado para fechar perguntas, quando talvez o mais saudável fosse sustentá-las por um tempo.
Isso produz um paradoxo frequente na clínica: pessoas que creem em um Deus de amor, mas vivem internamente dominadas pelo medo. Pessoas que oram, mas não conseguem descansar. Pessoas que desejam, mas se punem por desejar.
Nesses casos, o problema não é a fé é o uso que se fez dela.
O risco clínico da pressa espiritual
Toda cura emocional exige tempo. Exige elaboração, repetição, confronto com a própria história e reconhecimento dos próprios limites. A espiritualização do sofrimento oferece um atalho perigoso: resolve rápido, mas superficialmente.
Na Clínica Santinelli, observa-se que quanto mais cedo o sofrimento é “resolvido espiritualmente”, mais tarde ele retorna de forma intensificada. A dor que não foi escutada volta como sintoma. O conflito que não foi pensado volta como paralisia. O desejo que foi reprimido volta como culpa.
A pressa espiritual, nesse sentido, pode ser profundamente adoecedora.
Um caminho clínico mais responsável
O cuidado emocional sério não elimina a fé, mas também não a utiliza como técnica. Ele parte de uma pergunta fundamental: o que este sofrimento está tentando dizer?
Na abordagem clínica desenvolvida por Rodrigo Santinelli na Clínica Santinelli, a fé é tratada como uma camada real da vida psíquica, mas nunca como substituta da escuta clínica. O objetivo não é retirar Deus da história do paciente, mas libertá-Lo do lugar de ameaça interna que muitas vezes Lhe foi atribuído.
Quando o sofrimento encontra espaço para ser nomeado, algo se reorganiza. O sujeito deixa de lutar contra si mesmo. A fé pode, então, ocupar outro lugar: não o de resposta pronta, mas o de horizonte de sentido.
Quando a fé deixa de silenciar e passa a sustentar
O sinal de cura emocional não é a ausência de sofrimento, mas a possibilidade de atravessá-lo sem se destruir por dentro. Quando a espiritualidade deixa de silenciar a dor e passa a acompanhá-la, o sujeito recupera algo essencial: a liberdade interna de pensar, sentir e escolher.
Talvez a pergunta mais honesta não seja “o que Deus quer me ensinar com isso?”, mas:
“o que em mim precisa ser escutado antes de qualquer resposta?”
Quando espiritualizar deixa de ser fuga e a clínica passa a ser espaço de verdade, a cura deixa de ser promessa e começa a se tornar experiência.



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