top of page

Espiritualidade sem corpo: o perigo de ignorar as emoções

  • 20 de jan.
  • 2 min de leitura

Há sujeitos que falam de fé com clareza, mas não sabem dizer onde dói. Pensam com precisão, creem com convicção, mas perderam o contato com o próprio corpo e com os afetos que o atravessam. Vivem uma espiritualidade organizada, porém desencarnada.


Na clínica, esse funcionamento aparece como um afastamento progressivo da experiência emocional. O sujeito sabe explicar o que acontece, mas não consegue sentir o que vive.


Quando sentir se torna ameaça


Em muitos contextos, aprender a não sentir foi uma forma de sobreviver. Emoções intensas não encontraram acolhimento, foram desautorizadas ou vistas como excesso. Assim, o sujeito desenvolveu recursos psíquicos para se proteger do impacto afetivo.


A intelectualização surge como mecanismo central: a emoção é pensada, analisada, interpretada, mas não atravessada. O corpo é silenciado para que o controle seja mantido.


O problema é que aquilo que não passa pelo corpo não se transforma.


Dissociação: viver à distância de si


Ferenczi descreveu que, diante de experiências emocionais não metabolizáveis, o sujeito pode se dissociar. Não se trata de um desligamento total, mas de uma presença parcial na própria vida.


O sujeito funciona, responde, produz mas está distante do que sente. Vive como observador de si mesmo. A espiritualidade, nesse contexto, pode se tornar um lugar seguro para manter essa distância: tudo é elevado, racionalizado, sublima-se o afeto antes que ele toque.


O corpo fica fora do discurso.


O corpo como lugar do inconsciente


A psicanálise nos lembra que o corpo não é apenas biológico; ele é corpo pulsional, atravessado pela linguagem e pelo inconsciente. Quando a emoção não encontra palavra, o corpo responde.


Sintomas psicossomáticos, crises de ansiedade, dores difusas, fadiga persistente ou uma sensação constante de desligamento são formas de o corpo dizer aquilo que foi excluído da experiência consciente.


Ignorar o corpo não o faz desaparecer apenas o torna mais ruidoso.


Espiritualidade e falso self


Winnicott nos ajuda a compreender como uma espiritualidade sem corpo pode reforçar o falso self. O sujeito aprende a apresentar uma versão emocionalmente controlada, equilibrada, aceitável. Por dentro, porém, a experiência espontânea vai sendo empobrecida.


O sujeito não se pergunta mais “o que estou sentindo?”, mas “o que devo sentir?”. A emoção deixa de ser vivida e passa a ser corrigida.


O custo é a perda de vitalidade.


Quando o afeto não encontra lugar


Uma espiritualidade que não tolera o afeto gera sujeitos que se culpam por sentir tristeza, raiva ou ambivalência. Emoções passam a ser vistas como falha moral ou fraqueza psíquica.


O sujeito luta contra o que sente, em vez de escutar o que o afeto anuncia. O conflito interno se intensifica, e o corpo segue carregando o que não pôde ser simbolizado.


Um trabalho de reintegração


O trabalho analítico não convida o sujeito a abandonar a espiritualidade, mas a reintegrar o corpo à experiência. Sentir não é perder o controle; é recuperar presença.


Quando o sujeito pode nomear o que sente, o afeto deixa de ameaçar. Ele passa a circular, a se transformar, a encontrar sentido.


A espiritualidade, então, pode deixar de ser um lugar de fuga e se tornar um espaço de sustentação.

 
 
 

Comentários


clinicasantinelli.com.br

  • Whatsapp
  • Instagram
  • alt.text.label.Instagram
  • TikTok
  • alt.text.label.YouTube

©2025 por Rodrigo Santinelli. Criado por OneProduções

bottom of page