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Adultos emocionalmente exaustos: quando o cansaço não é físico

  • 20 de jan.
  • 3 min de leitura

Há um tipo de cansaço que não melhora com descanso, férias ou uma noite inteira de sono. O corpo até para, mas algo dentro permanece em alerta. O sujeito acorda cansado, atravessa o dia no automático e vai dormir com a sensação de que nunca fez o suficiente.


Na clínica contemporânea, esse cansaço aparece com frequência e quase nunca é apenas físico. Trata-se de uma exaustão psíquica, produzida por anos de adaptação excessiva, silenciamento do desejo e funcionamento constante em modo de desempenho.


O esgotamento que não encontra nome


Muitos adultos chegam à análise dizendo: “não sei por que estou cansado”. A vida parece organizada, as responsabilidades estão sendo cumpridas, não há um evento traumático evidente. Ainda assim, o corpo pesa, a motivação desaparece e a alegria se torna rara.


Do ponto de vista psicanalítico, esse quadro costuma estar ligado a um funcionamento marcado pelo excesso de exigência interna. Não é o mundo externo que apenas cansa é a relação do sujeito com aquilo que ele acredita que precisa ser.


Esse cansaço não nasce do fazer demais, mas do ser para o outro o tempo todo.


Sobre-adaptação e falso self


Winnicott descreveu que, quando o ambiente não acolhe a espontaneidade do sujeito, ele aprende a se adaptar precocemente. Em vez de agir a partir de si, passa a responder às expectativas externas. Surge então o falso self: uma organização psíquica funcional, eficiente, mas desconectada da experiência viva.


O falso self trabalha, entrega resultados, sustenta relações, cumpre papéis.

Mas ele cansa porque não descansa nunca.


Quanto mais o sujeito vive a partir desse lugar, menos acesso tem ao que realmente deseja. E onde o desejo não circula, a vitalidade se esgota.


O imperativo de funcionar


Na cultura atual, não basta existir é preciso funcionar bem. Esse imperativo atravessa o trabalho, os relacionamentos, a espiritualidade e até o cuidado consigo. Descansar passa a ser visto como fraqueza; parar, como culpa.


Internamente, essa lógica se transforma numa voz silenciosa que exige constância, produtividade emocional e equilíbrio permanente. O sujeito não se autoriza a falhar, a sentir ambivalência ou a simplesmente não dar conta.


O resultado é um cansaço sem pausa, porque não há espaço simbólico para o limite.


Quando o corpo fala


Aquilo que não encontra palavra encontra corpo. A exaustão emocional frequentemente aparece associada a dores difusas, alterações do sono, ansiedade, irritabilidade, crises de choro sem causa aparente ou uma sensação persistente de vazio.


Não se trata de fraqueza emocional, mas de um corpo convocado a sustentar o que o psiquismo não conseguiu simbolizar.


O corpo passa a carregar o peso de uma vida vivida em excesso de adaptação.


Cansaço e perda de sentido


Lacan nos ajuda a compreender que o sujeito se esgota quando se afasta de seu desejo. Não é o excesso de tarefas que adoece, mas a repetição de uma vida que já não faz laço com aquilo que é singular.


Quando o sujeito vive apenas para corresponder ao ideal profissional, familiar, religioso ou moral ele perde o contato com o que o move. O cansaço, então, não é apenas físico ou emocional: é existencial.


Um deslocamento possível


O trabalho analítico não começa perguntando “como descansar mais?”, mas “de onde vem essa exigência?”. Não se trata de ensinar o sujeito a relaxar, mas de ajudá-lo a reconhecer o lugar de onde ele vive.


Quando o sujeito pode nomear o que sustenta sua exaustão, algo se desloca. O limite deixa de ser vivido como fracasso e passa a ser reconhecido como necessidade estrutural.

 
 
 

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