O Trauma Silencioso da Comparação Infantil
- pastorsantinel
- 13 de mai. de 2025
- 2 min de leitura

“Por que você não é como seu primo?”
“Seu irmão estuda sem ninguém mandar, olha só!”
“Fulano já consegue fazer isso… e você ainda não?”
A intenção, muitas vezes, é ajudar, incentivar, educar. Mas a comparação constante, ainda que bem-intencionada, pode causar na criança uma ferida psíquica profunda — um trauma silencioso que não grita, mas molda, reprime e esvazia o sujeito em formação.
Do ponto de vista psicanalítico, especialmente na perspectiva de D. W. Winnicott, essa prática pode ser compreendida como uma invasão do espaço potencial da criança, justamente onde ela deveria experimentar segurança para ser quem é. Em sua teoria da borda, Winnicott descreve como a criança precisa de um ambiente suficientemente bom, um enquadre estável, onde ela possa se sentir segura para explorar, criar, falhar e retornar — sem medo de perder o amor ou o lugar no afeto do outro.
A comparação desrespeita essa borda. Ela força a criança a olhar para fora antes de se consolidar por dentro. Ela diz, mesmo sem palavras: “Não confie no que você é, seja o que o outro espera.” Nesse cenário, a espontaneidade da criança — que é a base do verdadeiro self — começa a ser substituída por respostas adaptativas. Ela começa a fazer não o que deseja, mas o que acredita que a fará ser aceita. Forma-se, então, o falso self: um modo de existir voltado para agradar, não para viver.
Além disso, a comparação gera vergonha, frustração e, muitas vezes, raiva recalcada. A criança se sente exposta, diminuída, rejeitada em sua singularidade. Em vez de se sentir segura em seus ritmos, ela se vê num palco de avaliação contínua, o que fere sua confiança básica. A borda entre ela e o mundo se torna porosa demais — o mundo invade, e ela já não se reconhece.
É claro que toda criança precisa de limites e direção. Mas Winnicott nos ensina que o desenvolvimento saudável nasce do ambiente que acolhe e sustenta — não do ambiente que compara e cobra excessivamente. O crescimento genuíno não nasce da dor da inadequação, mas da confiança de que pode-se existir mesmo imperfeito, mesmo em processo.
Pais e cuidadores precisam, então, trocar a régua da comparação pelo olhar da presença. O que essa criança sente? Do que ela precisa? O que ela já está tentando comunicar, ainda que em silêncio?
Porque uma criança que cresce sendo comparada pode até alcançar desempenho…
Mas dificilmente alcançará pertencimento — nem mesmo dentro de si.



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